Por Rosely Sayão

Neste último fim de semana, li no UOL algo que me interessou: "Veto de crianças em casamento é moda, mas pode pegar mal para noivos". Ao ler a reportagem, fiquei sabendo que muitos noivos não querem a presença de crianças na cerimônia de seu casamento e que deixam isso muito claro no convite.

Imediatamente eu me lembrei de uma cerimônia de casamento à qual compareci, com convidados de todas as idades: bebês de colo, crianças, adolescentes, jovens, adultos e velhos. O que me chamou a atenção nessa celebração não foi só a presença de todas as gerações, mas também o relacionamento entre todos.

Fiquei agradavelmente surpresa ao ver que, quando os noivos convidaram os presentes a acompanhá-los em uma dança, jovens dançaram com velhos, adultos com crianças, e adolescentes com crianças pequenas. Minha agradável surpresa teve um motivo: não têm sido comuns situações de relacionamentos sociais entre todas as idades, não é?

Ao ler a reportagem citada, não fiquei surpresa. Faz tempo que temos tido dificuldade de estabelecer e manter relacionamentos intergeracionais e que temos retirado de situações públicas as crianças e os velhos, principalmente. Temos, portanto, um bom convite à reflexão sobre o estilo de vida que temos adotado.

Criança atrapalha a vida dos adultos, dá trabalho, exige atenção e cuidado constantes, enfim, ocupa muito o adulto que, dessa maneira, se vê privado de tomar a si próprio como prioridade. É por isso que alguns restaurantes, hotéis, empresas e, agora, festas de casamento, têm vetado a presença de crianças. Nós, os adultos, não queremos que elas nos incomodem em nossa diversão, em nosso lazer, em nosso trabalho.

O fato é que perdemos a mão de como nos relacionar com pessoas de idades distantes da nossa. E são principalmente as duas pontas geracionais –crianças e velhos– os mais prejudicados, os que só conseguem se relacionar com seus pares de idade.

Em festas de crianças, só elas são convidadas; os poucos adultos presentes, em geral, são contratados para entreter e propor diversos tipos de recreações a elas.

As famílias enfrentam dificuldades de convivência devido, em parte, a essa nossa dificuldade de relacionamento intergeracional. Muitos pais não conseguem ensinar aos filhos de idades diferentes a convivência respeitosa e amigável entre eles.

Empresas também enfrentam o desafio de formar equipes de trabalho com a presença de colegas com idades distantes: os mais velhos não compreendem os mais jovens e os criticam, e estes não sabem muito bem como integrar-se com os mais experientes e mais velhos do que eles em uma mesma tarefa.

Fica bem mais difícil viver dessa maneira, segregados em grupos etários. Por isso, podemos e precisamos mudar algumas de nossas concepções sobre a vida.
Primeiramente, é preciso lembrar: todos fomos crianças, e todos seremos velhos.

As crianças não devem ser apenas responsabilidade dos pais quando presentes em reuniões sociais ou em espaços públicos: é responsabilidade de todos os adultos cuidar delas, relacionar-se com elas. Elas são a garantia do futuro da humanidade.

Finalmente: o relacionamento entre pessoas com idades diferentes é enriquecedor para todos os envolvidos. Criança não dá trabalho, apenas: criança é vida! 

Matéria extraída do Jornal Folha de São Paulo online de 09/07/2017